Devaneios de um Caminhante Solitário

12 março, 2006

A Banda do CDS

O líder parlamentar do CDS-PP, Nuno Melo, declarou hoje «ultrapassado» o «episódio mais ou menos infeliz» em que o líder do partido, Ribeiro e Castro, nega ser «chefe da banda», referindo-se à bancada democrata-cristã.

É significativo o mal-estar que se instalou no CDS-PP. È certo que muitas pessoas, até ideologicamente ligados à Direita, consideram o CDS um partido fraco, sem uma liderança forte e com posições (muito) discutíveis acerca de temas basilares na nossa sociedade (a questão da pena de morte/prisão perpétua, a eutanásia e, claro, o aborto) e até mesmo nos temas recorrentes da política do dia-a-dia.
Com esta liderança de Ribeiro e castro, a divisão interna (que, num partido com tão pouca expressão, torna-se, deveras, alarmante) acentuou-se: é ainda a ala Portas/Telmo Correia que continua a liderar parlamentarmente o CDS. Insistem ora em interpelações ora em intervenções ambas completamente desnecessárias, roçando, por vezes, o ridículo – decerto sintomas daquilo a que já denominei anteriormente de um “Complexo de Édipo” em relação ao seu fundador, Freitas do Amaral, este, (tal como Ribeiro e Castro (!) ) cada vez mais afastado das mesquinhices e posições ideológicas que, ao longo dos anos, vêm caracterizando o próprio partido.
O CDS-PP corre, de facto, o risco de vir, literalmente, a desaparecer.

Estas “guerrilhas internas já resolvidas” são apenas (mais um) prenúncio da sua extinção. A falta de um candidato presidencial marcadamente “democrata-cristão”, a falta de desmarcação das posições que tem o PSD (e quando se desmarca, os resultados desastrosos que obtém junto da A.R. e também da opinião pública), o facto de ter tido um resultado autárquico pouco animador e um péssimo resultado legislativo (fruto do CDS ter feito parte do unanimemente considerado pior governo da democracia portuguesa, o de Santana Lopes) e, o cada vez mais afastamento (mais um…) do próprio Paulo Portas – quiçá “sonhando com outros voos mais altos” fundamentam esta minha opinião.

Lamento, todavia, que assim o seja. Num sistema de Democracia Representativa como o nosso, é salutar que se conjuguem várias ideologias e posições diferentes – algo de que carece, definitivamente, a direita portuguesa. O CDS não está à altura do desafio. No fundo, são “uma banda de música “popular”, desafinada e sem maestro”.

P.S. - Parece que estava a advinhar... O líder do CDS-PP desvalorizou a iniciativa do vereador democrata-cristão na Câmara do Porto, Manuel Sampaio Pimentel, de pedir que se demita da liderança do partido, alegando não ser «adepto da democracia incidental».

5 Comments:

  • Caro Caminhante,

    Sendo um convicto democrata, confesso-lhe que hoje em dia estes senhores (CDS) não fazem falta nenhuma no nosso regime constitucional.

    Têm uma praxis política confusa e uma ideologia difusa e nem sequer têm familia política europeia que os aceite.

    Cumprimentos,
    AAF

    By Blogger Antonio Almeida Felizes, at 12 março, 2006 06:17  

  • De um modo menos "directo" (radica, se se quiser) foi mais ou menos isso que tentei dizer...
    Mas até eu lamento esse facto. Era importante numa democracia representativa haver partidos que representassem todos os quadrantes ideológicos (democratas, claro) que existem - desde que, é certo, se limitem a uma representatividade que não seja perigosamente excessiva.

    Cumprimentos

    By Blogger Caminhante Solitário, at 12 março, 2006 17:52  

  • caro lupê
    concordo ctg q de facto faz falta haver representação partidaria plural e democrata. O que vai acontecer com a erosão do CDS, malogrado PP, será o efeito spill over da dtª conservadora no PSD, afastando o grande partido da oposição de uma matriz social democrata de centro e arrastando-o tendencialmente para a dtª

    By Anonymous acinom, at 13 março, 2006 09:42  

  • Gosto da expressão "representatividade que não seja perigosmente excessiva". Talvez um taxi seja a dimensão apropriada, mas o verdadeiro problema do PP é este: sem um líder à altura do anterior (o melhor - do ponto de vista do PP - que passou e vai passar pelo partido nos próximos tempos, e com Cavaco - uma referência também para o PP - em Belém, o que resta para um grupo de jovens perante um PS que governa mais à direita do que o socialismo reclama, e com o PSD a viabilizar, se não mesmo a apoiar, muitas das reformas de Sócrates?

    Este é o dilema, e é por isso que Ribeiro e Castro antecipou o Conselho Nacional. Já é difícil fazer oposição sem oposição interna. Com a bancada parlamentar em roda livre, e sem o líder a pôr os pés no Parlamento, eu acho mesmo que é impossível.

    By Blogger MB, at 13 março, 2006 13:09  

  • Parece que, no que concerne às políticas do CDS-PP (isto é, à falta dela…) estamos todos de acordo. De facto, com um governo claramente centrista (ainda bem que o é, na generalidade da actuação) e com Cavaco na presidência assiste-se a um certo regresso do denominado “bloco central”. A esquerda, no seu global, critica. Aliás. como sempre fez e sempre o irá fazer (até é bom que haja quem critique e quem esteja atento). O PSD tem dificuldades em criticar se quiser ser uma oposição responsável e de críticas construtivas (como, há que também dizê-lo, está, na maior parte das vezes a sê-lo). O PP, além de não ter com que implicar (descobrem os casos mais aberrantes e sem nexo, como, por exemplo, o da questão da interpelação a Freitas do Amaral) e, pior do que isso, não o sabe fazer. Assiste-se a um rápido desaparecimento do Partido o que, no meu ponto de vista, poderá implicar também uma certa desfragmentação do próprio PSD (na perspectiva de que alguns “laranjas” têm do “não poder a direita ficar esvaziada”…). A eleição de Ribeiro e Castro, como o MB diz, poderá ter sido tanto positiva como negativa: se por um lado, é muito mais “politicamente superior” do que, por exemplo Telmo Correia, é sem dúvida uma opção pior daquela que este seria, num partido como o PP…

    By Blogger Caminhante Solitário, at 13 março, 2006 17:29  

Enviar um comentário

<< Home