Devaneios de um Caminhante Solitário

18 março, 2006

Boa Noite, senhor Presidente!

Li a crónica de Miguel Sousa Tavares no Expresso, na última semana, em que este faz uma antevisão daquilo que poderá ser Cavaco Silva como o novo Presidente da república.
Antes de mais, começo por dizer que MST tem uma inteligência inegável e tem posições que se assemelham muito às minhas próprias opiniões (excepto, talvez, em questões relacionadas com futebol) e daí ser um “espaço” que mais me atrai no semanário, agora que MST se transferiu vindo do Público.
Achei a crónica desta semana de um inegável interesse e que traduz bem aquilo que penso de Cavaco Silva.

Começa MST por fazer uma confissão e revelar que nunca antes votou em Cavaco Silva, “nem nas três vezes que se candidatou a PM, nem nas duas que se candidatou a PR, afirmando que sempre foi muito crítico daquilo a que se chamou o “cavaquismo”, muito embora lhe reconheça seriedade e empenho. Ainda assim esclarece que Cavaco Silva é, desde o dia 9 o Seu PR, a única pessoa que trata, de facto, por “Presidente” e deseja-lhe “boa-sorte” porque “ou estaria a desejar o mal para o país, ou faria parte daqueles que acham que o cargo é rigorosamente inútil (…)”. Não acha mal que CS tenha “vontade de fazer coisas e de não ficar conformado com o que ele próprio chamou de “imobilismo”, mas adverte, e bem, que isso não será necessariamente um mal, desde que a sua agenda política não colida com a agenda do governo.

Em seguida, MST extrai do discurso de CS na tomada de posse, um significado de “distanciamento da tão elogiada magistratura do seu antecessor”. Para isso transcreve excertos do discurso de CS, bem elucidativo dessa teoria: “actuará dentro do quadro dos poderes constitucionais, segundo a sua própria interpretação dos mesmos”; substitui cooperação institucional por “cooperação estratégica”; referindo-se ainda que espera, juntamente com o governo, fazer “obra comum”.

Na conclusão, MST – e era isto precisamente que eu gostava de destacar da sua crónica – explica porque nunca votou em CS, e coloca algumas reticências quanto ao denominado “cavaquismo”. Transcrevo esta parte integralmente:

“CS teve dez anos privilegiados para governar e fazer as reformas de que o país precisava e gastou-os a fazer estradas, hospitais e pouco mais. Deixou a justiça em roda livre, aumentou o “monstro” da Administração Pública sem a reformar, deixou a educação entregue aos sindicatos e as verbas para a formação do Fundo Social Europeu entregue a vigaristas sem escrúpulos, e a Segurança Social na antevéspera da falência. Tudo aquilo que ele agora anuncia ir exigir que este governo faça e que ele não fez, quando tinha maioria absoluta, uma enxurrada de dinheiros europeus e uma situação económica internacional invejável, com juros baixos e energia barata. Seja por má consciência, seja por vontade séria de ver o país libertar-se finalmente das razões do seu crónico atraso, a verdade é que CS, se escolhe ir por aí, só encontrará neste governo o mais inadequado dos bodes expiatórios para os males de que o país sofre.
A opinião pública tem a percepção de que este é o primeiro governo em muitos, muitos anos, que começou verdadeiramente a tentar mudar o estado de coisas e a enfrentar os poderes estabelecidos a todos os níveis da sociedade. E, logicamente, espera que o Presidente o ajude, e não o atrapalhe.
Que a sorte e o talento dêem ao novo Presidente a sabedoria de perceber o que pode e deve fazer e o que não pode e não deve fazer” (fim de transcrição)

Gostava, após a extensa citação de MST, realçar umas opiniões. De facto, reconhece-se alguns méritos a CS. É aquilo a que se chama um “self-made man” que, com muito esforço e empenho, conseguiu chegar onde chegou, embora as suas “escolhas” enquanto PM, no meu ponto de vista, não foram as mais adequadas. Pode-se referir que Portugal estava “apenas” há uma década em liberdade e que vivia, ainda, muito em recuperação do unanimemente considerado insucesso do PREC. Todavia, isto não se pode afigurar como desculpas totais.
De facto, quando CS teve de escolher entre “qualificação” e infra-estruturas, ao optar pela última hipótese, escolheu mal (a Espanha e a Irlanda são disso exemplo). Com altos fundos vindos da comunidade europeia e uma situação de paz mundial generalizada, não estabeleceu as prioridades políticas que se impunham – e isso foi uma “catástrofe” para o nosso país, já que muito da crise em que estamos mergulhados hoje, teve com CS o seu início, prolongou-se com o “guterrismo”, equilibrou-se um pouco com Durão Barroso até este “fugir” em busca de prestígio…pessoal, teve o completo afundamento com Santana Lopes até este ser “despedido” e, só agora, volvidos quase dez anos – curiosamente ou talvez não, com a primeira maioria absoluta desde… CS – é que se vislumbra, pelo menos, o caminho da esperança para “ressuscitar” Portugal.
Como já referi anteriormente, apesar de não ter votado em CS, dou-lhe agora o meu benefício da dúvida. Acredito que, fruto da experiência política que, evidentemente, tem, e depois de um longo interregno em termos de aparições públicas que, estou certo, fez com que CS reflectisse nos (muitos) erros que cometeu enquanto PM, pode ser útil à política e ao rumo que este governo (e bem) optou por seguir. Espero (e pegando nas próprias palavras de CS na tomada de posse, acima transcritas), mais do que uma cooperação institucional, uma efectiva “cooperação estratégica” em que Governo e PR trabalhem em sintonia e sem interferências de parte-a-parte. Portugal precisa de deixar a “mesquinhice política” e de avançar com pujança para o a cada-vez-mais-longínqua Europa dos Quinze.