Devaneios de um Caminhante Solitário

01 março, 2006

Capote

“The village of Holcomb stands on the high wheat plains of western Kansas, a lonesome area that other Kansans call 'out there'. Some seventy miles esat of the Colorado border, the countryside, with its hard blue skies and desert-clear air, hás na atmosphere that is rather more Far West than Middle Weast. The local accent is barbed with a prairie twang, a ranch-hand nasalness, and the men, many of them, wear narrow frontier trousers, Stetsons, and high-heeled boots with pointed toes.” (Truman Capote in “In Cold Blod”)

Assim começa “In Cold Blood”, o best-seller de Truman Capote, cujo filme fui ver hoje.
Para ser coerente comigo próprio, devo começar por dividir o filme da própria personagem – Truman Capote.
O filme é magnífico. Sempre gostei deste género de filmes em que tudo se passa à volta de um único tema – o próprio livro de Capote, um livro pioneiro no desenvolvimento de uma nova modalidade de romance – aquilo a que o próprio apelidou de “nonfiction novel” ou “romance documental”. O filme começa, então, com um artigo que Capote iria escrever para o seu jornal “The New York Times” sobre o assassinato de uma abastada família de agricultores. Com autorização do jornal, Capote entrevista várias pessoas da aldeia para tentar recriar a vida tanto dos assassinos como das vítimas. Cedo percebe que ali está o “tema” por que esperou toda a sua vida e decide, pois, escrever um livro, o Seu livro. Durante o longo processo de entrevista, ele acaba por se afeiçoar a um dos assassinos, Perry Smith – este, também, com uma densidade psicológica impressionante (“I didn´t want to harm the man. I thought he was a very nice gentleman. Soft-spoken. I thought so right up to the moment I cut his throat”).
Todavia, esta ligação Capote-Smith não só não impediu o escritor de relatar o que, objectivamente, aconteceu – um crime hediondo que levou os seus homicidas à pena capital – como, na sua ironia e sadismo quase enervante chegou a “usar” hipocritamente os assassinos, a quem denominava amigos, com propósitos restritamente próprios (inclusivamente desejou a rápida execução da sentença para “conseguir” acabar o seu livro). Realço ainda o desempenho impressionante de Philip Seymour Hoffman na interpretação do próprio Truman Capote, interpretação essa que, com um dramatismo levado ao limite e com os tiques e voz absolutamente irritante que muito bem imitou, o levará decerto a ganhar o tão desejado Óscar.

Por outro lado, apraz-me também falar um pouco da própria pessoa – Truman Capote, alguém que entra em contradição consigo mesmo, que entra em contradição com “a natureza das coisas”.
Excêntrico, arrogante e homossexual assumido, é-nos impossível ficar, pelo menos, indiferente à sua personalidade (“Ever since I was a child, folks have thought they had me pegged, because of the way I am, the way I talk. And they're always wrong”). Capote é um génio, com todas as suas manias, com todos os seus gostos duvidosos, com toda a sua superioridade psicológica – um verdadeiro vivaldino, alguém que age com astúcia mas que, além de atingir sempre os seus objectivos, recolhe os maiores prazeres da vida (“There is not a word or a sentence or a concept that you can illuminate for me”). Para nós, será, com certeza, difícil alcançar a sua grandeza emocional: por exemplo, mais ainda do que tentar perceber porque Capote escreveu este livro, será tentar perceber como o fez e porque utilizou as pessoas da maneira que, de facto, utilizou – com o único propósito de atingir a perfeição da sua obra, sem para isso olhar a meios.
Mas da mesma que expressa a sua singularidade, – e daí a sua auto-contradição - Capote revela-se também como um Ser execrável, alguém que, com uma simpatia mordaz, tem toda uma série de características físicas e até mentais que repugna qualquer pessoa dita “normal”. É alguém que consegue na mais plena falsidade o seu objectivo mais mesquinho, intolerável e até perverso.
Por tudo isto, Capote é, mesmo, um génio, alguém quase inimitável. Por tudo isto, é prioritário ver o filme. Por tudo isto, o seu livro “In cold blod” estará, num futuro muito próximo, na minha mesa-de-cabeceira.

“Sometimes when I think how good my book can be, I can hardly breathe.”
“No one will ever know what 'In Cold Blood' took out of me. It scraped me right down to the marrow of my bones. It nearly killed me. I think, in a way, it did kill me.” (T.C.)