Devaneios de um Caminhante Solitário

27 março, 2006

A Desintoxicação Forçada

A proibição de fumar em locais públicos, bares e restaurantes e locais de trabalho entrou hoje em vigor na Escócia

Mais tarde ou mais cedo, semelhante lei aplicar-se-á em Portugal. Aí, depois de “cair o Carmo e a Trindade”, o governo vê a popularidade a diminuir, recua e revoga.
Afinal, para mal dos pecados, a receita fiscal é elevadíssima e o gesto de fumar continua a ser “chique a valer”.

Acho, sinceramente, que a sociedade tem de se adaptar a uma nova realidade, a uma nova - mas constantemente relembrada - consciência: “Fumar, efectivamente, mata”. Contudo, acho que essa adaptação deve ser efectuada de um modo progressivo e didáctico. Antes de se instaurar algo de semelhante a uma “lei seca” deve-se começar por criar efectivos programas de sensibilização, principalmente junto daqueles jovens ansiosos por mostrar a sua “suposta rebeldia” por meios que, para esses sim, deveriam ser frontalmente ilícitos. É aí que o problema nasce e é aí que deve ser combatido - mas sempre por um critério proporcional.
Afinal os fins não justificam os meios (não devem, pelo menos, nalgumas situações), muito menos quando estes se justificam por um certo "auto-prazer hedonístico", feito no prejuízo dos outros.

16 Comments:

  • Atravessar a rua também. O problema, neste caso, parece ser a probabilidade de alguma das coisas acontecer. Fumar é prejudicial, não só para o fumador, mas para os que o rodeiam. Mas andar de carro também, não tanto para o condutor, mas para os peões que não só se sujeitam a um atropelamento, como ainda inalam aquele puríssimo monóxido de carbono. Extingamos a utilização de automóveis? Eu não veria qualquer problema, mas aqueles que gostam pouco de andar, seja a pé, seja de transportes, farão uma revolução. A conclusão está certa, a premissa é que não, sobretudo porque é absolutamente casuística. Se fumar mata, muitas outras actividades diárias também. Se é porque faz mal à saúde, então proíbamos também o futebol. Sei lá eu quantos anos já perdi de vida à conta do Glorioso!

    Não chego ao ponto de autoritarizar a questão, como fez por exemplo JPC. Não acho que um controlo do fumo seja excessivo. Porém, acho que deve ter limites. A criação de salas separadas não me parece uma má opção e quaisquer analogias com o ghetto de Varsóvia pecarão por ridículas. Clichè: a minha liberdade cessa onde começa a dos outros. E isso vale também para o fumo do meu cigarro, -garrilha, charuto, cachimbo e, acima de todos eles, qualquer tipo de charro ou ganza.

    By Blogger JAS, at 27 março, 2006 12:54  

  • No dia em que se aplicarem medidas que, efectivamente, diminuam o consumo de tabaco, o Estado vai (finalmente) à falência.

    De resto, concordo com o jas. Sendo fumar um prazer (pelo menos para alguns dos fumadores), deve apenas tentar que esta actividade não prejudique os restantes cidadãos. Criação de salas separadas, proibição de fumar em espaços (públicos) fechados, etc, parecem-me medidas razoaveis. A opção por uma "lei seca" já mostrou (no passado) não ser a opção certa.

    By Blogger Pedro Malaquias, at 27 março, 2006 13:37  

  • Um fumador, um não fumador; uma sala para fumadores, outra para não fumadores.

    Mas qual é o drama? É só preciso bom senso!!

    By Blogger MB, at 27 março, 2006 17:22  

  • Parece que (não digo primeira mas, certamente uma das primeiras vezes) estamos todos de acordo. Acho que a solução não radica na proibição total do tabaco – o que só alimentaria outras espécies de especulações como acontece, por exemplo, com as drogas – mas na aplicação de medidas a que eu chamei “proporcionais”, vocês de “não más opções”; “razoáveis”; “com bom senso”.
    Ainda assim, discordo da analogia feita pelo Jas. A principal premissa da proibição do tabaco – e é essa que deve ser o mote da sensibilização, em particular junot dos mais jovens – é a de que fumar mata. Não se retira qualquer outro benefício (para além de um desnecessário, no meu ponto de vista, “prazer auto-hedonístico”). O mesmo não se passa com o futebol – no extremo, um desporto – nem tão pouco com os automóveis – meio de transporte. Ambos têm aspectos negativos mas certamente também positivos, ao passo que no tabaco esses “aspectos positivos”, de facto, não existem.

    By Blogger Caminhante Solitário, at 27 março, 2006 21:12  

  • Fumar é um prazer para muitos. Ora o prazer é, quanto a mim, algo de muito importante. Claro que é possível consegui-lo de diversas formas, mas, caso não se prejudique outros, esta é uma forma tão legítima como todas as outras de sentir prazer ("cada um sabe de si..."). O prazer sentido por um fumador é algo de positivo, tal como o prazer sentido por um utilizador ocasional de drogas (já que ao deixar de ser ocasional, estamos perante um vício, uma procura constante de alívio da dor), desde que outros não sejam preujudicados por tal.

    PS - nunca me voltes a escrever "auto-hedonístico"

    By Blogger Pedro Malaquias, at 28 março, 2006 02:35  

  • "auto-hedonístico" - em primeiro lugar foi escrito entre aspas ("). Em segundo lugar o sentido era, simplesmente, a de satisfação pessoal (e daí auto) momentânea pelos pequenos prazeres da vida. A finalidade do tabaco é, no meu ponto de vista, hedonista, já que o seu único propósito é o do prazer espiritual, sem olhar aos meios que possam preocupar para obter esse mesmo prazer.
    Não vejo assim grande problema nesta construção morfológica. Tu vês? Se sim, lamento.

    By Blogger Caminhante Solitário, at 28 março, 2006 02:52  

  • O "hedonístico" já pressupõe o "auto". Vem de hedonismo, uma corrente filosófica (surgida na Grécia, acho) que defende o prazer individual (e não o colectivo) como sendo o mais importante bem da vida.

    By Blogger Pedro Malaquias, at 29 março, 2006 00:31  

  • "hedonismo" em certo sentido pode ser a busca do prazer individual que somente se plenifica através da sua extensão ao maior número possível de pessoas; mas o seu sentido comum é-nos dade por uma corrente filosófica (epicurismo) que nos diz que se deve procurar (sujeito desconhecido) o prazer moderado, o único que não conduza a sofrimentos espirituais indesejados - isto é, a uma dedicação ao prazer como estilo de vida (in Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)

    By Blogger Caminhante Solitário, at 29 março, 2006 01:27  

  • Não é esse o ponto. Os hedonistas, bem como os epicuristas, tomam em consideração o prazer individual. Logo, auto-hedonístico é (pelo menos) uma expressão tautológica.

    E os epicuristas, segundo me recordo, não se preocupam com este tipo de problemas. O "sofrimento espiritual indesejável" resulta de certas emoções, que por isso se devem evitar (é, em suma, o contrário do dito português "quem não arrisca, não petisca") e não deste tipo de prazeres.

    By Blogger Pedro Malaquias, at 29 março, 2006 02:52  

  • Para terminar esta discussão - que não era, de resto, o ponto essencial do post - gostava só de clarificar que o sentido que gostava de realçar era de um certo "carpe diem" tão característico da própria filosofia hedonística a que eu me referi. A utilização do "auto" foi para realçar esse mesmo facto, isto é, desse prazer, advindo do tabaco, ser, única e exclusivamente, para a própria pessoa que fuma. Nada demais. Nesse sentido - mesmo não concordando que esse prazer "carpe diemno" seja, implicitamente, individual, como disseste - a expressão que utilizei pode até mesmo ser tautológica (como reforço da ideia de exclusiva individualidade).

    By Blogger Caminhante Solitário, at 29 março, 2006 03:47  

  • discussão dos grandes..! ainda não percebi kem sabe mais,por isso continuem a esforçar-se k eu ando a avaliar!

    By Anonymous marta, at 29 março, 2006 19:34  

  • Acho que já podes escolher o vencedor porque a "discussão" (ou antes, "debate saudável sobre a palavra e a própria filosofia hedonista")... está termindada!

    By Blogger Caminhante Solitário, at 29 março, 2006 20:30  

  • bom...eu não percebo nada de nada..sou uma pekena inculta..k de momento basicamente só sabe de ossos,músculos e nervos...posto isto..acho k a minha decisão não iria ser de modo algum,imparcial! :P isto porke...para mim o luís é um SENHOR EM CULTURA..ou seja..o ´meu voto iria sem dúvida para o senhor luis :) Beijossss!!

    By Anonymous marta, at 05 abril, 2006 19:04  

  • Obrigado por seres... minha amiga! Como, é claro, não conheces a outra parte, o "PP" - alguém que eu próprio chamo também de um "senhor em cultura", decerto irias ficar muito mais indecisa! Ainda que, neste caso, não tenha razão...

    By Blogger Caminhante Solitário, at 07 abril, 2006 04:22  

  • (Não tão) Solitário Caminhante:
    Cheguei aqui buscando a palavra hedonismo pra saber se usava ou não em um texto que eu preciso apresentar na faculdade.
    Como foi a primeira vez que li essa palavra, fui premiada com um "debate muito esclarecedor" sobre isso, que não poderia deixar de registrar aqui.

    Fumo, logo sou hedônica.

    A palavra seria usada pra ilustrar um trabalho de Sociologia onde estou analisando um Grupo Social de um Motoclube e ainda não cheguei à conclusão se os motoqueiros são hedonísticos ou não. Auto-hedonísticos já sei que não são. Seriam Moto-hedonísticos? hehehe

    Piadas à parte, valeu pela grande ajuda!

    Entre um loop e outro, eu volto por aqui!

    ;o)

    By Blogger Infinit, at 02 junho, 2006 02:06  

  • Cara Infinit, será sempre bem-vindo qualquer comentário. Aqui, estamos sempre a aprender. uns com os outros.

    By Blogger Caminhante Solitário, at 03 outubro, 2006 16:12  

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