Devaneios de um Caminhante Solitário

07 março, 2006

A Noite dos Óscares

E o Óscar vai para… Crash – Colisão. Surpresa? Não para mim… Já no prognóstico tinha alertado para que Crash pudesse ser a grande surpresa (previ que Paul Haggis ganhasse o Óscar para melhor realizador – para quem não saiba, a diferença reside, essencialmente, em que para melhor realizador votam apenas os realizadores da Academia, enquanto para melhor filme votam todos: realizadores, actores, membros honorários da própria Academia, etc). O chamado “lobby gay de Hollywood”, desta vez não prevaleceu. A razão poderá ser que este é demasiado recente, ainda, para o espírito conservador da Academia. A mensagem de luta contra a xenofobia e racismo – um constante debate na sociedade norte-americana – prevaleceu. O próprio mundo está mais “preparado” para aceitar a inexistência entre pessoas da mesma raça do que propriamente do mesmo sexo.
Todavia, não deixa, no fundo, de ser curioso o facto do Óscar para melhor realizador não coincidir com o de para melhor filme. Foram raras as vezes em que os dois principais prémios da noite não coincidiram. Ainda assim, “cheirou” um pouco a desilusão para quem apostava forte em “O Segredo de Brokeback Mountain”.

De resto, sem grandes surpresas. O mais que esperado vencedor para melhor intérprete principal, Philip Seymour Hoffman, teve a companhia de Reese Witherspoon no que à “parte feminina do prémio” diz respeito. Esperava algo mais para Keira Knightley, mas o Óscar entregue à protagonista de “Walk the line” revela-se inteiramente justo. Confesso que não apreciava muito Reese Witherspoon mas, vendo este filma, mudei completamente de opinião. Tem um papel magnífico. Á medida que o filme passa (até numa cena é possível reparar) a personagem interpretada por Reese Witherspoon vai-se transformando e ganha uma dimensão psicológica gigantesca. Além disso, Reese tem a vantagem de ser ela própria a cantar – e, diga-se, fê-lo muito bem.

Já no que diz respeito à vencedora da categoria de melhor actriz secundária, Rachel Weisz, não houve “surpresa”. O mesmo não se pode dizer totalmente do actor secundário: aí, claramente, “O Segredo de Brokeback Mountain” começou a perder a noite com o Óscar a ser atribuído a George Clooney e não a Jake Gyllenhaal. Sou-me, todavia, a uma certa “compensação” para Clooney, devido ao desastre (em termos de Óscares – só nisso, porque o filme é brilhante) de “Boa Noite, e Boa Sorte”.

Mesmo assim, a grande decepção da noite chama-se Steven Spielberg. Talvez um dos meus realizadores preferidos, Spielberg parece que não “convence” a Academia. Aliás, atrevo-me mesmo a dizer que há um certo grupo de realizadores que são uma espécie de “patinhos feios” de Hollywood: Spielberg, Robert Altman (que, finalmente, ganhou um Óscar mas… honorário), e o próprio Woody Allen.

Uma palavra também para Jon Stewart. Um pouco comedido em relação às ironias que se esperavam de si, mas eficaz, com piadas inteligentes e, acima de tudo, sem se exceder nas “palhaçadas” (por exemplo, como sucedeu com o apresentador do ano passado). Por último, o que, para mim, foi, definitivamente, a surpresa da noite. O Óscar para melhor canção original. Chama-se “It’s Hard Out Here for a Pimp”, de um filme que ainda não estreou (“Hustle & Flow”), e que, só pelo título, é possível de imaginar a “elevada” qualidade musical… Simplesmente inacreditável!

Enfim, foi uma noite bem ao estilo norte-americano. Muito “glamour” e muito “suspense” que se prolongou, para muitos, até ao Óscar final. Nota negativa apenas para os “cortes do microfone” nos agradecimentos dos vencedores. Nem a declaração de vitória do prémio mais importante escapou. Mas nada que a Academia não nos tenha já habituado.

P.S. – Cabe, ainda, uma palavra para a TVI. Bons comentadores mas repugnante a constante publicidade a imagens pornográficas para telemóveis. Poderia ter-nos poupado a isso, mas assim sabemos quem pagou a emissão.
Enfim, pelo menos transmitiu a cerimónia em directo e sem grandes interrupções/traduções. Menos mal…

8 Comments:

  • Luís, explique lá esta sua frase:"O próprio mundo está mais “preparado” para aceitar a inexistência entre pessoas da mesma raça do que propriamente do mesmo sexo."

    By Blogger João Gonçalves, at 07 março, 2006 17:59  

  • Caro João, mais uma vez me “apanhou” num “lapsus scriptae desnecessário”… O que queria ter dito é que “ próprio mundo está mais “preparado” para aceitar a inexistência de DIFERENÇAS entre pessoas da mesma raça do que propriamente do mesmo sexo”.

    A luta contra o racismo tem um “background” mais estável (acentuado, essencialmente, por Mandela com o fim do Apartheid) e que merece uma maior aceitação por parte do mundo, ao contrário do que sucede com a questão (relativamente recente, pelo menos em termos de debate na opinião pública).
    Posso-lhe dar mesmo um exemplo concreto: eu próprio. Considerando-me um “liberal socialista-democrático” (será que se pode dizer assim?), tenho ainda algumas reservas quanto à aceitação da homossexualidade e quanto ainda mais quanto ao casamento – sou, todavia, frontalmente contra a adopção por parte de casais homossexuais. Por outro lado, sou totalmente contra o racismo. É uma vergonha para uma sociedade ocidental e democrática ainda existir este tipo de descriminações…

    By Blogger Caminhante Solitário, at 07 março, 2006 19:08  

  • Luís, desculpar-me-á a presunção mas em relação à questão da sexualidade - homo ou hetero porque só há uma - eu recomendava-lhe a leitura de um ensaio, com uns anitos, de Gore Vidal, um ensaísta e escritor norte-americano, intitulado "Robert Graves and The Twelve Ceasars". Pode lê-lo na íntegra neste endereço: http://www.rjgeib.com/thoughts/desolation/gore-vidal.html. Se quer que lhe diga, acho que, quer o racismo, quer a homofobia, como "combates" maioritários contra minorias (no último caso a minoria é mais "minoritária")continuam florescentes. O filme dos cowboys retrata uma situação que, metaforicamente, podia passar-se entre um homem e uma mulher ou entre duas mulheres. O outro não sei porque ainda não vi, mas a América sempre teve problemas de consciência e usa o cinema para os libertar. Não se esqueça que é uma sociedade fundamentalmente puritana. Na hora dos prémios - que valem o que valem - "dividiram o mal pelas aldeias", ou seja, deram o oscar de melhor realizador ao Ang Lee dos cowboys e, para a América poder dormir imaculada e tranquila, deram o de melhor filme a uma película igual a tantas outras que eu trago para casa do Blockbuster onde, aliás, existe.

    By Blogger João Gonçalves, at 07 março, 2006 21:55  

  • Acima de tudo, entristece-me ver que uma entrega de prémios cinematográficos se pauta mais por questões sociais e políticas do que, propriamente, pela qualidade dos filmes e dos que neles se envolvem directamente. Sejamos honestos e sinceros, "Brokeback Mountain" como filme era um desastre: o argumento era uma miséria e os actores deixaram muito a desejar. Quanto a Phillip Seymour-Hoffman, foi ele sem dúvida o melhor actor da noite. Agradou-me ver que, por vezes, os Óscares são entregues a quem os merece realmente.

    Enfim, não posso alongar-me muito mais. O Nobel da Literatura serve exactamente os mesmos propósitos.

    By Blogger JAS, at 07 março, 2006 22:38  

  • João Gonçalves: Em primeiro lugar, muito obrigado pela sugestão. Gosto, sinceramente, destes conselhos literários vindo de pessoas cultas e de quem eu conheço a maneira de pensar, quase de “ser”. Apesar de não ter sido muito fácil (o link não funcionou e eu tive de procurar individualmente qual dos ensaios era, mas encontrei!), já o imprimi, irei lê-lo e farei chegar a minha opinião o mais breve que me seja possível.
    Em segundo lugar, eu também concordo que estas “lutas” pela igualdade entre pessoas (no fundo, penso que se poderá apelidar deste modo, todas as lutas contra as segregações, racismo, a homossexualidade) “continuam a florescer”. O que quis fazer referência é ao facto de a luta pró-homoxessualidade ser a mais recente e daí, talvez, uma menor aceitação por parte das pessoas em geral.
    Como já antes referi, vi praticamente a totalidade dos filmes que, este ano, forma nomeados para os Óscares. De facto, “Brokeback Mountain” é uma simples história de amor. O facto de ser entre homossexuais é que lhe confere uma certa “singularidade” já que, se nos abstrairmos desse facto, não passa disso mesmo: uma simples história de amor, apesar de estar “superiormente” realizada e de ter também a curiosidade de ser entre dois “cowboys” – protótipos de uma certa “masculinidade americana”.
    Em relação a “Crash”, penso que é um filme interessante e que, pelas circunstâncias da época em relação a uma cada vez menor aceitação do racismo (relembro que há sensivelmente 2/3 anos, os filmes de ou com afro-americanos não eram de vez, premiados) poderia ter causado uma “surpresa” o que veio, efectivamente, a acontecer. Agora, se era merecedor do Óscar mais importante da noite, é discutível. A minha opinião sobre isso é muito reticente.

    P.S. – Já reparei na sua admiração por “Gore Vidal” (na “description” do Portugal dos Pequininos, por exemplo). Não sei se por isso – e desculpe agora a minha presunção (!) -se recusou a ver o filme “Capote” (ou sequer a ler o meu comentário em relação ao filme e ao escritor). Mas, se me permite um conselho: vá ver. Nem que seja pelo brilhantismo da actuação de Philip Seymour Hoffman.

    By Blogger Caminhante Solitário, at 07 março, 2006 22:54  

  • Jas: Nisso tens razão. Parece que a entrega de prémios se pauta por conter, também ela, uma certa “mensagem social”, em vez de premiar, pura e simplesmente, os filmes em si. Não sou tão “extremista” em relação a “Brokeback Mountain”. Acho mesmo que estás a ser um pouco injusto, não só para Ang Lee, como para os próprios actores, principalmente, para com Heath Ledger que, penso, teve um grande desempenho.
    Ainda assim, de certo modo se pode entender a posição da Academia. Num ano em que o cinema em “cinemas” bateu o seu record negativo, isto devido, em minha opinião, à falta de qualidade dos próprios filmes, optou-se exactamente por “juntar o útil ao agradável”, aproveitando a cerimónia para deixar um cunho também ele social. Enfim, opções…
    Mas já agora um desafio: quem deveria ter ganho o Óscar para melhor filme? Talvez “Match Point”, não?

    By Blogger Caminhante Solitário, at 07 março, 2006 23:13  

  • Sinceramente, voto em "Walk the Line". É uma biopic. É uma história de amor. Mas possui uma química absolutamente fabulosa, nomeadamente na relação entre Reese e Joaquin. Mais: em termos cinematográficos, provou que num filme biográfico não tens necessariamente de escolher um Actor igual ao biografado. Basta-te escolher um que seja realmente bom. Foi o que aconteceu em Walk the Line. Também gostei de "Capote". Duas biopics, o que não abona muito em favor dos vários argumentos escritos este ano.

    By Blogger JAS, at 07 março, 2006 23:17  

  • Sim, também gostei de ambos os filmes. Espantou-me o facto de em “Walk the Line” serem os próprios actores a interpretarem todos os temas musicais – acho que não se deu o merecido mérito a essas actuações, se bem que Reese ganhou o óscar. Adorei “Capote” – dediquei-lhe, inclusivamente um post.
    Mas acho que, neste ano não houve nenhum filme que se impusesse de uma forma autoritária tal como o fez, no ano passado, “Million Dollar Baby”.

    By Blogger Caminhante Solitário, at 07 março, 2006 23:31  

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