Devaneios de um Caminhante Solitário

17 março, 2006

Os Testes Médicos

Seis pessoas foram hospitalizadas hoje em estado grave, em Londres, depois de terem sido tratadas com um novo medicamento - TGN1412 fabricado pelo laboratório alemão TeGenere - para leucemia e artrite-reumatóide, ainda em fase experimental. Os doentes estão a sofrer falência múltipla dos órgãos.

A questão é, de facto, um pouco mais complexa do que, à primeira vista, pode parecer. Em troca de 3500 dólares (!), Seres Humanos submetem-se a ser cobaias para testes de medicamentos, caso contrário a sua comercialização era impossibilitada. Pode-se argumentar que eles “recebem” e por isso, estão a submeter-se de livre e espontânea vontade. Todavia, esta é uma prática que deveria ser proibida: não é por serem ressarcidos que se pode legitimar tal barbárie – há, ainda, inúmeras “ditas profissões” que, apesar de serem (extremamente) rentáveis, não deixam só por si de serem ilegais (estou a pensar não só nos narco-traficantes como também, na “profissão mais antiga do mundo”).
A questão que se pode colocar é a de saber qual é, então, a solução para esta situação. No meu ponto de vista, e tendo os primatas um ADN muito próximo do dos Humanos, a solução parece, pois, incontornável… Pelo menos em medicamentos…

P.S. – As minhas desculpas aos ecologistas, à QUERCUS e ao PEV… mas não vislumbro outra solução. A escolha entre humanos ou animais é (tem de ser) fácil de fazer.

7 Comments:

  • Não posso estar mais em desacordo. Sem pessoas destas, se calhar ainda se morria de constipação.

    Para além disso, estas pessoas têm problemas de saude relacionadas com os medicamentos e vêem-nos, muitas vezes, como a última esperança.

    Além do mais, os seres humanos são entes esclarecidos, podendo escolher pessoal e livremente o seu "destino".

    Quanto ao facto da proibição de certas actividades... Acho que deves ir ao ratio da proibição: nesses casos, estamos perante actividades degradantes da sociedade (mais o tráfico de estupefacientes, já que a prostituição deveria, na minha opinião, ser legalizada, mas isso sai já do âmbito da questão); aqui, estaríamos perante o Estado-Pai, que sabe o que é bom para os seus "filhos".

    Pedro Malaquias @ http://eupensoisto.blogspot.com

    By Blogger Pedro Malaquias, at 17 março, 2006 03:41  

  • Como referi no início do post, este é um problema mais grave do que se prevê à primeira vista. É óbvio que não estou aqui a defender uma tese “anti-evolucionista” – o tempo de se considerar a dissecação de corpos uma heresia já lá vai, há mais de 4 séculos. Agora, penso que estes testes devem ser feitos com extremo cuidado e quando se apresentam com todas as etapas do seu processo já concluídas (isto é, os testes em humanos deveria ser a última fase experimental a realizar). E antes de se passar para pessoas – em casos que sejam estritamente necessários – devem ser primeiramente testados em animais (ao contrário do que as associações de defesa de animais dizem o que, não invalida que os testes devam ser igualmente realizados com o princípio do mínimo dano possível e na máxima segurança possível).

    “Além do mais, os seres humanos são entes esclarecidos, podendo escolher pessoal e livremente o seu "destino".” – aqui, discordo completamente. Como sabes nem todas as pessoas são “entes esclarecidos” e muitas não têm noção do risco que correm ao enfrentarem tais testes. Se for em face de uma última esperança, aí penso que sim, é compreensível estas quererem recorrerem a tais testes. Ainda assim, sei que muitas dessas “cobaias” são “recrutadas” de entre tribos africanas (semelhante ao processo… esclavagista), sem o menor controlo e sem a adequada recompensa.

    Em relação à analogia que tracei com outras “profissões”, foi só para demonstrar que o facto dessas pessoas-cobaias serem ressarcidas economicamente, isso não legitima a “legalidade” de tal “contrato” e, muito menos a recompensa adequada por um risco que é… de vida.

    É certo que são imperativos os testes em seres humanos – não era isso que queria dizer. Acho, todavia, que esses testes devem ser utilizados numa fase em que o risco seja o mais reduzido possível e com critérios de segurança adequados. Mas isso deixemos ao cuidado dos investigadores, como é óbvio.

    By Blogger Caminhante Solitário, at 17 março, 2006 20:25  

  • Não poderia discordar mais, correndo o risco de plagiar o comentário de pp.

    Primeiro, submetem-se de livre vontade, recebem por isso, são avisados da possibilidade de existência de efeitos adversos. Quaisquer problemas que ocorram são da sua inteira responsabilidade.

    Segundo, acho deploráveis os testes em animais. Lá porque o Direito os trata como "Coisas", não significa que o sejam realmente. Acho ridículo que sejam realizados testes em primatas, ratos, seja o que for, primeiro porque os animais não têm vontade e, como tal, não são livres de escolher. Segundo, porque se nós estamos a testar medicamentos para curar as nossas doenças, é mais do que louvável que os testemos em nós. Se há voluntários dispostos a sofrer as consequências pela humanidade, nada mais nobre. Se ainda recebem por isso, maravilhoso, fantástico, incrível. Pelos vistos, ao contrário do que se diz por aí, há algumas vidas humanas que têm um preço e esse preço é, definitivamente, o bem da humanidade. Acho injusto, cruel, sádico e cobarde que utilizemos uma suposta superioridade racional para nos servirmos de elementos mais fracos. Essa moralidade da tanga de que estão a morrer por um bem maior aplica-se tanto a macacos como a humanos. Aliás, a semelhança é tão grande que testar neles ou em nós é exactamente a mesma coisa.

    Lamento o jorro de lugares-comuns da ecologia global, mas se vamos discutir esta questão, então façamo-lo de forma justa e equitativa e isso só se alcança se nos deixarmos das lérias do costume e começarmos a admitir que temos de ser nós a pagar pelos nossos erros, falhas e imperfeições, não um macaco, um rato ou qualquer outro animal cuja vontade presumível, se a tivesse, seria certamente contrária a fazer parte de testes laboratoriais.

    By Blogger JAS, at 17 março, 2006 20:26  

  • Em primeiro lugar, este espaço – o blog em geral – é um espaço de crítica, de confronto de ideias, de confronto intelectual, se se quiser e estou bastante satisfeito que isso aconteça com o fundamento e a elevação que, ao longo da “vida” deste blog isso tem acontecido.

    Depois deste ponto prévio, gostaria de lamentar, mas não estou de acordo tanto com o “PP” como com o “Jas” – apesar de compreender e, naturalmente, respeitas as vossas opiniões que, quiçá, até poderão estar mais acertadas que a minha.
    Todavia, gostava de me explicar. Assim, em relação aos “avisos” que as pessoas têm do risco desses testes, penso que deveriam ser fiscalizados afim de ter a certeza que esses avisos são realmente feito, completos e fundamentados (sem esconder nada). Deixo o benefício da dúvida. Depois, há a questão de cobaias recrutadas em países da África meridional – as grandes companhias e os países ditos “civilizados” rapidamente desconversam e escondem tal facto que, estou certo, todos condenamos.

    Em seguida, respondendo directamente ao Jas, estou em desacordo da teoria “intra-humanitarista” que expuseste. Sou completamente a favor dos Direitos dos animais e frontalmente condenador dos seus mau-tratos que, confesso, é algo que me repugna.
    Ainda assim, o facto da “singularidade” humana – que existe, não a neguemos – faz com que ache compreensíveis os testes feitos, primeiramente, em animais. Isto não invalida, claro está, que os testes feitos em animais não sejam alvo de um controlo rigoroso, de uma fiscalização apertada e de uma segurança máxima (isto é, utilizar a experimentação somente na última fase do processo).

    Como não vivemos num mundo ideal, existem – existirão sempre – cada vez mais e complexas doenças. O avanço científica encarregar-se-á de “descobrir” curas, mas para isso, é preciso experimentar as soluções. E entre Pessoas e ratos, a escolha tem de ser óbvia. A bem da própria humanidade e… natureza em si mesma.

    PS – Aceito, como é meu presságio de “não ser dono da razão”, opiniões contrárias. Ainda para mais num caso tão complicado como este… Em que nem sequer o meu próprio ponto de vista é firme e certo. É, de facto, um tema muito complexo.

    By Blogger Caminhante Solitário, at 17 março, 2006 21:00  

  • Infelizmente não sao poucas as pessoas a pensar como tu, a ti e a essas pessoas chamos lhe de ignorantes, afinal para que estudas tu, pois é, esquecia me que és um tecnocrata. para nem vale a pena pensar que essas pessoas merecem mesmo morrer, afinal elas raciocinam e sabem os riscos que correr, é mais um esforco que a vida lhes proporciona, talvez uma boa entrada para um "A3", ha riscos a correr e disso todos sabemos, afinal todos tem o que merecem, ou nao sera assim? Mas agora os primatas para alem da morte o que ganham? sim! se os testes derem resultado tambem lhes vao dar 3500euros? era justo. Sinceramente acho que os primatas nao pediram para morrer... pensa um bocado na vida luis larga um bocado a tecnica e os livros, o socialmente correcto.... Valera mesmo a pena suplicar a vida a um animal inocente? ou será mais justo que alguem morra, sabendo os riscos que corre?

    By Blogger Nuno Leitão, at 18 março, 2006 14:04  

  • Afinal não somos todos animais? sera justo passar á frente de alguem numa fila só, e apenas só porque somos mais espertos? vale apena prejudicar os outros porque somos superiores intelectualmente? acho que não. mas se nao fosse esse o teu campo de trabalho luis, eu estranharia , mas como é nessa base que tu e teus semalhantes funcionam.... ja nada me choca... já nem o leao tem o direito de ser o rei da selva!!!

    By Blogger Nuno Leitão, at 18 março, 2006 21:43  

  • Bom, parece que toquei aqui nalguns “pontos sensíveis”…do Nuno Leitão.
    Em primeiro lugar, não me considero “ignorante” por ter opiniões diferentes das tuas.
    Muito menos, sou um tecnocrata, aliás, não sei se sabes o significado da palavra, mas eu posso-te elucidar: “é alguém que procura soluções sem se preocupar com aspectos humanos – é precisamente por me preocupar, acima de tudo, com os Seres Humanos, que não sou um tecnocrata. Em segundo lugar, estudo para “ser alguém, em busca do mais completo conhecimento (que me ajuda a buscar a própria felicidade).
    Em terceiro lugar, fazer com que os testes se realizassem em animais não seria condenar-lhes à morte – bem pelo contrário. Como já afirmei, a realização desses testes só deve ser feita se estritamente necessário, e com todos os cuidados possíveis. Em relação ao facto de as próprias pessoas quererem, em troca de dinheiro, ser utilizadas como cobaias, como sabes, na nossa sociedade há limites à própria liberdade (ex. é proibido o suicídio, o aborto, a eutanásia, etc) e, por isso, não é só porque essas pessoas, a maior parte delas, viverem paupérrimamente, e por isso sujeitarem-se aos testes, não é por isso que estes devem ser permitidos sem mais.
    Todavia, ainda assim, posso admitir que, as pessoas que sabem do risco que correm e daquelas que utilizam os testes como última esperança para as suas doenças, seja-lhes autorizada essa possibilidade. O que não posso já admitir – e acontece inúmeras vezes sem o menor conhecimento da sociedade (algumas vezes, a AMI e a ONU, denunciam) – é irem para África e utilizar os seus pobres cidadãos para fazerem testes, á revelia da vontade dos mesmos e das mínimas condições. Isso é completamente indamissível. A escolha entre esses africanos (inclusivamente crianças) e ratos – mesmo para quem seja estupidamente racista – tem de ser óbvia. Sobre todos os pontos de vista.

    By Blogger Caminhante Solitário, at 20 março, 2006 20:23  

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