Devaneios de um Caminhante Solitário

16 março, 2006

A Ota

Parece que o penúltimo post que escrevi sobre a (falta de) capacidade do actual aeroporto da Portela e a extrema importância de um novo aeroporto pode causar algumas críticas.
Cabe tomar posição. Para isso readapto um comentário que fiz no “Ohpestotira” quando o assunto foi abordado no mesmo, acerca desta notícia – uma nova análise sobre o impacto da deslocalização do aeroporto para a Ota revela que Lisboa perde cerca de 15,6% de turistas.

Não posso – a minha consciência não mo permite – dar qualquer tipo de a esta notícia que mais parece ter vindo do “24 horas” e daí também não ter tido qualquer relevância nos outros jornais “mais a sério”. Podendo ou não criticar-se a questão política da construção de um novo aeroporto em Lisboa (o que me parece improcedente e como mais abaixo explicarei), a própria notícia merece alguns reparos.

Em primeiro lugar, este denominado “estudo” é mais um entre tantos, encomendados por “alguém” (a ATL neste caso, uma associação que nem sequer sabia que existia apesar de me considerar minimamente informado) para prejudicar quem sempre está na berlinda para ser criticado – um Governo que toma decisões. Para mais, foi um estudo realizado em Dezembro de 2005, numa altura em que nem o projecto tinha sido apresentado, nem tão pouco estava assente que se iria avançar para um novo aeroporto. Como o próprio artigo refere “segundo explicou fonte do Observatório de Turismo de Lisboa, as receitas ganhas por Lisboa com o turismo são “muito difíceis de contabilizar” e daí a subjectividade do estudo, tornando-o num alvo relativamente fácil de discordância.

Em segundo lugar – e daí o meu desprezo pela notícia - a própria pergunta feita aos turistas remete imediatamente para uma resposta negativa (e muito me surpreende apenas terem sido 18%). Para quê enquadrar a pergunta (“caso o aeroporto se situasse a 53 km da cidade teria realizado esta viagem?”) com o facto de que essa distância será encurtada com um grande interface de transportes, já previsto e especificamente criado para o efeito? Como foi possível chegar ao custo da deslocação Ota-Lisboa a um valor tão certo que até chega aos cêntimos (!), qual foi o seu critério? Em que se basearam? Para quê tentar explicar aos turistas que o actual aeroporto cedo estará sobrelotado e aí é que muitos teriam de desistir da sua vinda a Lisboa (de que é prova os próprios dados divulgados ontem pela ANA, sobre a falta de capacidade do actual aeroporto para responder às necessidades turísticas – não daqui a 10 anos – mas… no próximo verão!)?

Lisboa é uma das poucas capitais europeias que continua a manter uma infra-estrutura destas em pleno centro da cidade, e é certamente a capital (pelo menos do grupo dos “quinze”) com um aeroporto mais pequeno e claramente insuficiente. Para dar um exemplo, a distância que separa Milão ao seu principal aeroporto – Malpensa – é de uns “míseros” 45 Km mas já 53 são demais! (não consta todavia, que os turistas deixam de ir a Milão pela sua distância). Além do mais, a manutenção na Portela significaria uma perda de importantes fundos comunitários, a expropriação de, “pelo menos, 80 hectares de zona urbana, o que afectaria 1920 habitações, 47 armazéns, 10 instalações industriais, 3 escolas e 1 igreja, com o realojamento de dez mil pessoas, e o aumento do ruído afectaria cerca de meio milhão de pessoas mas que, considerando o crescimento da cidade, principalmente nos arredores do aeroporto, é provável que estes números sejam actualmente superiores” (segundo um “Estudo Preliminar de Impacto Ambiental pedido pelo ministro”e que é aqui referido e, como é óbvio, também passível de ser criticado se bem que as hipotéticas expropriações e o agravamento do ruído me parecerem incontornáveis numa solução de manutenção na Portela) enfim, uma solução defendida quase casuisticamente por alguns, mas que se afigura claramente inviável para o país.

Portugal encontra-se, mercê da ampliação da U.E. e do panorama de crise internacional generalizada numa situação em que não pode recuar face aos novos investimentos e modernização, sob pena de perder irremediavelmente o “comboio dos quinze”. Sendo decerto discutível a opção pelo lugar – a Ota em específico – penso que a construção de uma nova infra-estrutura é obrigatória até porque só será estreada daqui a 10 anos e custará directamente ao Estado pouco mais de 10 % do valor da obra. Penso que é a altura de se avançar definitivamente no progresso a favor de Portugal e contra todos os profanadores da desgraça, que “moveram mundos e fundos” para que outras grandes obras recentes não se concretizassem (Expo 98, Ponte Vasco da Gama e até o próprio Euro 2004) mas que tiveram que se calar perante o inaudito êxito que todas elas tiveram – o que muito contribuiu para elevar o nome do NOSSO país, pelo menos a um lugar a que todos os verdadeiros portugueses gostariam de ver permanentemente. O mesmo se passará com a Ota. O mesmo se passará com o TGV.
Pode-se criticar – e ainda bem que é assim – este ou aquele governo. Nenhum é perfeito, nenhum o será. Mas por favor, saibam reconhecer quando uma decisão foi bem tomada mas, principalmente, saibam fundamentar as críticas.

3 Comments:

  • Quando tiver tempo, faço uma resposta bonitinha a este forum, mas...

    O Euro 2004, ao nível financeiro, foi péssimo. 10 Estádios? Para quê?
    A Expo? Fabuloso sim senhor. Mas e os problemas orçamentais?

    Além do mais, estes foram 2 eventos. Estamos a falar da construção de uma infraestrutra, que ninguém sabe por que razão será construída na Ota. Interesses em terrenos? Eu não sei, mas porque não descobrir de quem são todos os terrenos daquela zona? Talvez se chegassem a conclusões interessantes.

    By Blogger Pedro Malaquias, at 16 março, 2006 03:57  

  • Pareces um membro do Governo a ser directamente atacado.

    By Blogger JAS, at 16 março, 2006 07:37  

  • PP: Fico então à espera da resposta "bonitinha". Depois, responder-te-ei Às críticas que levantares.

    Jas: limito-me a defender aquilo em que acredito. Criticarei quando acho que alguma medida ou acção deve ser criticada. Nada demais.

    By Blogger Caminhante Solitário, at 16 março, 2006 16:40  

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