Devaneios de um Caminhante Solitário

03 abril, 2006

Em Resposta ao Reparo

Escreve o também “camarada” (já que, tal como no sentido utilizado por ALM, este adjectivo nada tem a ver, decerto, com “politiquices comunistas”, visto nenhum defender estas posições ideológicas) e amigo António Leite-Matos, no seu blogue, “Ohpestotira”, uma espécie de refutação àquilo que escrevi aqui sobre uma certa preocupação da minha parte por um desfasamento às vivências contemporâneas por parte do Vaticano, vulgo Igreja Católica.

A minha resposta dou-a num “post” próprio e não num comentário no seu blogue, não só pela mesma “inteligência direccionada e cultura” que, indiscutivelmente ALM tem e merecedora de uma resposta deste calibre, mas, essencialmente, para além de querer chamar à coação este debate, faço-o para respeitar o mesmo formalismo que ALM utilizou (já que fez o seu reparo no seu blogue pessoal e não num possível comentário nos “Devaneios”).
Do que escreve retiro que, na sua opinião, e passo a citar, “O Vaticano não tem de fazer malabarismos de alistamento à Ciência, essa não é a área em que se mexe.” Nesta frase está o essencial da opinião de ALM, com a qual, não posso deixar de discordar. Na verdade, e na minha modesta e agnóstica posição, não condeno o Vaticano nem reduzo a importância da sua existência. Como centro da vida católica, o Vaticano tem de defender certas posições (eu diria) quase dogmáticas sobre a importância dos “valores humanos” e da (resumindo aquilo que o próprio Bento XVI afirmara) “socialização solidária dos seres humanos na busca do verdadeiro sentido da sua existência”. Este é um debate próprio da filosofia cristã, com o qual até posso estar em acordo mas que me abstenho de comentar.

O que aqui interessa é um certo condicionamento feito pelo Vaticano à civilização ocidental – no extremo, aos cristãos – para que esta se regule por cânones que são, alguns deles, do meu ponto de vista, quase utópicos. De facto, a tomada de posição quase implacável para com os católicos que contrariem essas premissas cristãs, em certos “temas” como o aborto, (até) a igualdade sexual e, mais inacreditável, na condenação do uso do preservativo, é bem demonstrativo de um conservadorismo atroz, possivelmente em nome de interpretações restritas da “Lei de Deus” e da Bíblia em geral.
É importante, como já referi, num período em que se assiste a um acentuar do denominado “choque civilizacional” que a Igreja, de uma vez por todas, siga as pisadas da sociedade que, de um modo maioritário, espiritualmente rege. Esta sociedade tem obrigatoriamente de enveredar por um caminho de progresso (combate às doenças sexualmente transmissíveis e na prevenção destas, igualdade de direitos entre sexos, evolução científico-tecnológica) que traga mais benefícios, não só do facto de vivermos em globalização, mas também em termos do próprio aumento da esperança média de vida” e da liberdade intelectual das pessoas.
Assim sendo, será legítimo a qualquer religião condenar estas realidades mas, no caso concreto, será benéfico para a própria Igreja Católica condenar determinadas práticas que previnem autênticos flagelos humanitários ou “eufemizar” as próprias conquistas sociais e – para mais – científicas?