Devaneios de um Caminhante Solitário

19 abril, 2006

Os Meninos Deputados

Depois de neste post ter expressado a minha total incredibilidade e condenação pelo facto dos deputados terem decidido ir de “férias mais cedo”, faltando, por conseguinte, à votação de propostas-lei na A.R., cabe agora expressar o meu total espanto perante o ridículo (se não estivéssemos a falar dos soberanos representantes democráticos deste país) de tais justificações.
Como diz o povo foram “piores as emendas que os sonetos”, particularmente a justificação do deputado Guilherme Silva que, para quem não saiba, atribuiu as culpas aos próprios deputados (não pelo facto de não terem cumprido com as suas funções mas) porque – e cito – “Sabiam que era véspera de começar um fim-de-semana longo e que os deputados não estariam assim tão interessados. Além disso não era o dia habitual das votações, nem era a hora das votações”. Esta declaração – propondo tacitamente um período de férias pascais para os deputados (quando nem sequer – e bem – a função pública tem direito a tais regalias) – vale só por si e escusado é fazer quaisquer outros comentários.

Ainda assim não resisto a analisar de uma forma mais transversal o problema que é, precisamente, o que hoje foi debatido na própria A.R.: “Ética e Política”. Hoje em dia, para a totalidade dos portugueses estas duas palavras são exactamente o oposto uma da outra. É algo que nos envergonha mas que não podemos escamotear: os políticos, na sua grande maioria, não têm qualquer ética no desempenho das suas funções e daí, a descredibilização da classe em geral. Noutros países ser-se deputado é chegar ao topo de uma hierarquia que se pressupõe crescente em termos profissionais. É ser-se um representante da nação e, por isso mesmo, escrutinado pela população – que faz com que a responsabilidade profissional – ética, se se quiser – seja máxima.
A existência ou não de faltas nem sequer se devia colocar. Os políticos não deviam ter necessidade de se sujeitar a este tipo de medidas escolares ou laborais, já que se pressupõem terem dos graus de maturidade psicológica e de responsabilidade mais elevados de todos os cidadãos do país. Mas não, a solução passa mesmo por agravar os “castigos” seguindo o esquema escolar do “por um se comportar mal, pagam todos”, com a agravante de aqui, na A.R., não ser apenas um só que se porta mal. Assim sendo, tarda um controlo electrónico dos deputados para se saber se estão ou não, efectivamente, no plenário, enfim, qualquer coisa parecida com as pulseiras electrónicas para os prisioneiros domiciliários, pois a mera medida proposta hoje pelo governo de ser marcada falta de comparência no período das votações é algo que já deveria ter sido implementado antes.

Entristece-me, pois, e muito, esta situação com os mais altos representantes da nossa nação. Parecem uma turma de meninos da pré-primária que estão sempre a “baldar” e cuja solução passa ou por um acentuado controlo dos encarregados de educação ou mesmo pela dissolução da própria turma. E ainda pedem maior produtividade! Eis o exemplo que dão ao país…

4 Comments:

  • Artigo 148.º da CRP
    "(Composição)
    A Assembleia da República tem o mínimo de cento e oitenta e o máximo de duzentos e trinta Deputados, nos termos da lei eleitoral."

    180 não serão suficientes? Haja coragem.

    By Blogger Pedro Malaquias, at 19 abril, 2006 13:21  

  • Não, não são suficientes. O verdadeiro trabalho acontece nas comissões, e não no plenário onde apenas se debate política. Nas comissões faz-se política, leis, acordos e é aí é que as pessoas se deviam concentrar.

    Já agora, ficam a saber. O escândalo de um deputado chegar ao plenário, assinar o livro de presenças e ir-se embora acontece TODOS OS DIAS nas comissões parlamentares.

    By Blogger MB, at 19 abril, 2006 15:14  

  • Não PP, e, para mais, com apenas 180 deputados levantar-se-ia um novo problema: a representatividade dos circulos eleitorais. Se se reduzisse o número muitas cidades e regiões do nosso país correriam o risco de não ter qualquer representante na A.R.

    MB: Plenamente de acordo. E é precisamente esse escâncalo que acontece todos os dias que tem de ser evitado...

    By Blogger Caminhante Solitário, at 19 abril, 2006 19:11  

  • Quanto ao mb, certamente que 50 deputados incompetentes não fazem falta.

    Quanto à representitividade dos círculos eleitorais, acho que esse problema não se colocaria.

    By Blogger Pedro Malaquias, at 19 abril, 2006 19:38  

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