Devaneios de um Caminhante Solitário

02 abril, 2006

A Sinistralidade Rodoviária

Mais restrições: Governo pode baixar taxa de álcool no sangue. Esta decisão avança se o sector vitivinícola não agir para contrariar os números de mortos na estrada por excesso de ingestão de bebidas alcoólicas.

A redução de taxa de álcool permitida no sangue, caso o sector vitivinícola não faça campanhas para reduzir o número de mortes nas estradas, mais do que uma contradição em si própria, é antes, uma chantagem com a qual não posso estar em acordo.

Se é certo que o número de mortes nas estradas portugueses é, talvez, a principal causa de mortalidade no nosso país, esse facto não deve ser imputado ao sector em si mesmo mas antes aos próprios consumidores. Passo a explicar: não cabe responsabilidade aos produtores de bebidas alcoólicas fazerem uma campanha (ainda que necessária) que entre em contradição com a sua própria vontade enquanto maximização do lucro resultante do próprio consumo de bebidas alcoólicas – o que assume carácter de uma hipocrisia inacreditável. É ao Estado, enquanto prossecutor do chamado “interesse público” – e, naturalmente, da segurança dos seus cidadãos – que incumbe tal tarefa.
Além disso, e o que mais me parece significativo para discordar de tal “ultimato”, a taxa actual de 0,49 gramas de álcool no sangue está, inclusivamente, abaixo do limite médio dessa mesma taxa na União Europeia o que faz com que (como é prática recorrente no nosso país) sejam prejudicados injustamente os condutores responsáveis (aqueles que, embora ingerindo bebidas alcoólicas, estão abaixo do limite legal e, consequentemente, em perfeitas condições para conduzir), em detrimento dos “irresponsáveis” – isto é, quem esteja com álcool no sangue superior ao nível permitido – que continuarão a ter esse mesmíssimo nível (correspondente a crime) e a colocarem as suas vidas e, pior do que isso, também as vidas dos outros em perigo.

Posto isto, a solução é relativa e até surpreendentemente simples: Desde logo deve ser o próprio governo a multiplicar as acções de prevenção e sensibilização rodoviária, a impor cursos de formação cívica para condutores e, ele próprio, fazer a campanha do “se conduzir não beba”. Depois, é fundamental um aumento da fiscalização das brigadas de trânsito nos pontos mais “sensíveis” (como são as auto-estradas, os IP e os IC, e, claro está, as ruas de “diversão nocturna” dos centros urbanos) mas uma fiscalização que seja concreta, rigorosa e implacável - o que, deveras, não acontece. Só assim se conseguirá combater com resultados visíveis este autêntico flagelo nacional. Tudo o que sejam hipócritas campanhas não surtirá, obviamente, qualquer efeito e não passará disso mesmo – uma campanha.

6 Comments:

  • VEGETAIS!

    Efectivamente também não posso concordar que produtores tenham a obrigação de fazer campanhas contra o que de mais irresponsável conseguimos fazer, que é beber, beber, beber e conduzir. Afinal não se vendem bebidas com o intuito de se bebê-las enquanto conduzimos ou não esta na cabeça dos mesmos esperar que o cliente ao consumir o seu vinho ou o quer que seja não conduza de seguida, afinal nem todos temos carro. O máximo que podíamos exigir já que se fala de estupidez, mais uma vez vinda deste governo seria proibir campanhas de bebidas com teor alcoólico, nem que fosse um "MonCheri" se pensarmos bem a ingestão de uma saborosa caixa destes docinhos quem sabe ainda dá cadeia, deve chegar perfeitamente aos 0,5. Enfim vamos então proibir campanhas de tabaco, bebidas alcoólicas, e acima de tudo de automóveis afinal não é o vinho que mata mas sim os carros, antes de haver carros já havia vinho e ninguém morria na estrada. Qualquer dia já não podemos fazer nada, não passaremos de mais umas marionetas tentando sobreviver num mundo de leis, que nos remetem para um plano que não é nosso. Seremos Vegetais

    By Blogger Nuno Leitão, at 02 abril, 2006 23:37  

  • Como diz e muito bem não se resolve proibindo. Mas educando.
    Educando o gosto, o sonho, a ilusão e, mais importante, as mentalidades. Porém, estamos a viver o tempo do:
    ."não se pode fumar"/ quem ganha com o tabaco?
    .restrições à velocidade, mas quem ganha com a importação de carros cada vez mais velozes?
    .não beba se conduzir/mas quem ganha com os estabelecimentos abertos até desoras?
    Tantos e tantos paradoxos.
    Sensatez é urgente. Para todos, os que legislam e os que têm que observar a legislação. Todos e qualquer um.

    By Blogger Cãocompulgas, at 02 abril, 2006 23:51  

  • Nuno: Sem chegar ao exagero, concordo que não sãos os próprios produtores que têm de fazer a campanha da “negatividade” dos seus próprios produtos. Isso seria cair num contra-senso que nada de útil traria à sociedade.

    Cão com pulgas: é esse o equilíbrio que se pretende para o bem de uma sociedade. Que essas contradições sejam ultrapassadas com sensatez e sentido de responsabilidade. Por outro lado, um dos principais problemas dos condutores portugueses – na minha opinião, até mesmo a par com o excesso de velocidade ou de álcool – é sua falta de educação cívica. E para a combater, só através, como muito bem diz, da educação do gosto e das mentalidades. Mas isso levanta outros problemas: Será que estes admitem ser educados? Como será possível dar tal educação? Será que compete ao Estado dá-la?

    By Blogger Caminhante Solitário, at 03 abril, 2006 00:45  

  • Exagero? chamo-lhe raciocínio lógico dedutivo!

    By Blogger Nuno Leitão, at 03 abril, 2006 00:52  

  • É tudo muito bonito o que dizes, mas...

    1) O Estado não tem dinheiro para gastar em campanhas de sensibilização e de educação que, na prática, têm resultados, no mínimo duvidosos.
    2) Os produtores de bebidas alcoolicas têm lucro com as suas vendas. Ainda que sendo liberal, acho que parte do lucro pode muito bem ser canalizado para a chamada prevenção.
    3) Num mundo ideal, não seria preciso nada disto. As pessoas seriam, minimamente, civilizadas e não poriam em risco as suas vidas.

    By Blogger Pedro Malaquias, at 03 abril, 2006 03:29  

  • Em Resposta ao PP:

    1 – Será muito útil para o Estado e para os próprios cidadãos no geral que o Estado financie campanhas de prevenção rodoviária e até cursos de educação cívica. Os resultados são muito variáveis mas, pelo menos esta é a ideia que eu tenho, podem-se considerar positivos (basta ver a relação dos acidentes rodoviários aquando de anteriores campanhas ou até, comparando com as campanhas de sensibilização para protecção da floresta contra os incêndios – nos anos em que se abdicou destas, o número de incêndios disparou). Em relação ao financiamento, se não se conseguir reutilizar fundos desnecessários noutras actividades da Administração Pública e aplicá-los às campanhas, no máximo que se consiga sensibilizar as próprias fundações de solidariedade ou até os meios de comunicação social (ex., SIC Esperança) para as proverem. Há sempre algo que se consegue fazer…

    2 – Não cabe aos produtores fazerem tais campanhas. Aliás, esse lucro que referes poderia ser muito bem reduzido se quem não devesse beber – os condutores –, deixasse efectivamente de beber! Além disso, não creio muito da idoneidade que tais anúncios, financiados pelos próprios produtores pudessem ter.

    3 – O mundo ideal não existe nem nunca irá existir. O que se pode fazer é uma aproximação. Para isso era necessários que, como dizes, as pessoas fossem “civilizadas”. E o que é que o estado pode fazer para as “civilizar”? R: Campanhas de sensibilização e cursos de formação cívica… por exemplo…

    By Blogger Caminhante Solitário, at 03 abril, 2006 20:44  

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