Devaneios de um Caminhante Solitário

30 maio, 2006

O Patriotismo

Os partidos decidiram hoje adaptar a agenda parlamentar de 21 de Junho ao horário do último jogo de Portugal na primeira fase do campeonato do mundo de futebol, contra o México, às 15:00, hora habitual de plenário.

Será que também posso mudar as datas dos meus exames? Será que um médico também pode mudar as datas das urgências? Será que um bombeiro também pode mudar as datas dos incêndios? Será que podemos mudar de sentido de responsabilidade e de ética profissional? Portugal (o verdadeiro) agradece.

14 Comments:

  • «Não prejudicamos os trabalhos da Assembleia da República. Ao transferir o plenário para de manhã e realizando as comissões depois do jogo, cumpriremos toda a nossa agenda de trabalhos»

    Se isto for verdade, não vejo qual será o problema..

    By Blogger Pedro Malaquias, at 30 maio, 2006 18:15  

  • Em primeiro lugar, duvido muito que cumprirão a agenda até porque esse jogo será, como se impõem, o da passagem de Portugal aos oitavos-de-final. Em segundo lugar, por exemplo, os médicos têm de cumprir o seu dever àquela hora e não o podem fazer "depois do jogo" (até porque, entretanto, os pacientes terão morrido). E quando digo os médicos poderia dizer outra profissão qualquer. Os deputados, como representantes máximos da nação devem dar o exemplo e cumprir as suas obrigações. Mas ao darem ESTE exemplo, estão a fazer com que os trabalhadores portugueses façam uma pontezita no seu período laboral e com a justificação de que "se os deputados podem, nós também podemos" - Princípio da igualdade.
    Por outro lado, (e não quereria voltar aqui mas...) a A.R. já cometeu "barracas" suficientes neste ano (quem não se lembra da falta de quorúm numa das votações e de toda a polémica daí resultante?). Esta, seria uma perfeitamente dispensável.

    P.S.- Será irão ver o jogo na televisão ou... no estádio? Será que somos também nós, portugueses, que iremos "patrocinar" essa viagem?

    By Blogger Caminhante Solitário, at 30 maio, 2006 18:24  

  • Estive com meio post escrito sobre este assunto, apaguei tudo e desisti. Já me falta vocabulário para opinar sobre a rebaldaria que é ser deputado neste país.
    (Note-se que a decisão foi aprovada por unanimidade. Somos todos tão patriotas...)

    By Blogger marta r, at 30 maio, 2006 18:32  

  • Princípio da Igualdade - Tratar igual o que for igual.

    Ora estás a falar de duas profissões diferentes. Na minha opinião, é indiferente que o trabalho seja feito de tarde ou de manhã (na realidade, até estão a antecipar trabalho), desde que seja feito.

    By Blogger Pedro Malaquias, at 30 maio, 2006 21:15  

  • Princípio da igualdade - todos os cidadãos têm os mesmo direitos.
    Se os deputados têm o direito de fazerem uma pausa para irem ver o joguinho, porque é que os restantes trabalhadores, cidadãos se quiseres, não podem fazer o mesmo? Nem tão pouco importa se fazem ou não o trabalho que lhes é devido. O que aqui me espanta e que lamento é a atitude em si do "sou deputado, as minhas obrigações podem ser adiadas - afinal nem são assim tão importantes - deixa-me lá ver o jogo, na Alemanha se possível".
    Na minha opinião, um simples jogo de futebol (que, por muito que se goste da modalidade, não passa disso mesmo, um jogo de futebol) não é razão suficiente para se modificar a agenda e, muito menos, para paralisar a A.R.

    By Blogger Caminhante Solitário, at 30 maio, 2006 21:37  

  • Antes de mais, não há aqui qualquer violação do Princípio da Igualdade, porque igualdade é tratar igual o que é igual. Ser deputado não é igual a ser médico.

    Além do mais, não estamos perante um adiamento, mas sim um "adiantamento".

    Eles têm que estar lá umas quantas horas a trabalhar. Desde que o façam, a hora a que o fazem é indiferente, desde que o façam antes. É questão de se pensar nos trabalhos em que o que interessa é estar umas tantas horas no local, independentemente da hora a que tal aconteça.

    Se eles cumprirem as suas obrigações (aqui sim está o verdadeiro problema), parece-me indiferente a hora a que o fazem.

    Concordo que o motivo para esta alteração é ridículo, mas, no estado das coisas, o mais provável seria a inexistência de quorúm. E entre um dia com produtividade 0 e um dia com produtividade "normal" (que também não deverá andar muito longe do 0), prefiro esta segundo opção. O importante será o trabalho dos deputados.. se o fazem às 9h ou às 15h, isso não me interessa.

    E, com isto, vou estudar Teoria..

    By Blogger Pedro Malaquias, at 31 maio, 2006 01:57  

  • (o meu post tem algumas partes mais confusas, mas não fiz qualquer leitura prévia...)

    By Blogger Pedro Malaquias, at 31 maio, 2006 02:00  

  • Malaquias: O Princípio da igualdade não se afere atendendo às profissões mas sim ao facto de serem cidadãos com direitos iguais: assim, se os deputados podem ver o jogo, faltando ao seu trabalho ("adiantando", mas não é por isso que não deixam de faltar, até porque àquela hora, se não houvesse jogo, estariam a... trabalhar normalmente), porque não podem também os restantes portugueses?
    Não é o facto de eles fazerem ou deixarem de fazer as suas obrigações. É o exemplo e o sinal que transmitem ao país, como se eles verem o jogo de futebol fosse um desígnio nacional, mais importante do que estarem a resolver os efectivos problemas do país.
    Foi exactemente para se precaverem da mais que provável inexistência de quorúm que foi aceite tal "pausa". Mas achas que este é um bom princípio? Apartir desta excepção, no último escândalo da falta de quorúm a solução poderia ter sido a de conceder férias pascais aos "coitados" dos deputados. Estaria assim resolvido o problema chamado A.R. em vésperas de tais desígnios como as férias ou como os jogos de futebol.

    By Blogger Caminhante Solitário, at 31 maio, 2006 02:43  

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    By Blogger Pedro Malaquias, at 31 maio, 2006 03:09  

  • Eu não digo que moralmente toda esta situação tenha qualquer nexo; não o tem, evidentemente.

    No entanto, 1) os deputados não vão faltar ao seu trabalho (alteraram simplesmente a hora a que o vão fazer); 2)os efectivos problemas do país que eles deveriam estar a resolver foram resolvidos na manhã anterior; 3) no anterior caso da falta de quórum, isso já se tinha passado, tendo sido passada uma sessão de um dia para a véspera; o problema foi que os deputados faltaram a essa sessão (vamos lá ver se desta vez os deputados faltam à sessão matinal).

    Além do mais, um cidadão normal poderá fazer o mesmo. Como? Tirando esse dia e gozando-o como um dia de férias. Desta forma, retira um dia às suas férias, tal como os deputados vão tirar uma manhã à sua vida normal.

    Em suma, toda esta situação é ridícula, mas dela não vai resultar qualquer prejuízo grave para o país.

    By Blogger Pedro Malaquias, at 31 maio, 2006 03:11  

  • Irá resultar um grande prejuízo para o país (e daí eu ter dedicado um post do blog a esta situação) que é o desacreditar e a falta de confiança junto dos cidadãos que, mais uma vez, a A.R. tem conseguido dar.

    By Blogger Caminhante Solitário, at 31 maio, 2006 04:30  

  • Vou linkar.

    Cumprimentos,

    By Blogger Cãocompulgas, at 31 maio, 2006 17:30  

  • Não poderia concordar mais. Sem desejar entrar na questiúncula jurídica, parece-me que tal adiamento é representativo duma falta de profissionalismo atroz. Não está em causa o facto de ser ou não realizada a sessão. Neste caso, é o exemplo, o princípio que contam. A mensagem que os deputados passam ao País é confrangedora. Parecemos ter voltado à Idade Média, mas em vez de misturarmos Estado e Clero, misturamos Estado e bola.

    Se, por um mero acaso, se verificasse novamente a falta de quórum, deveriam os deputados ser severamente punidos. Se as sessões são feitas ao início da manhã, deverão sê-lo sempre e não em função de haver, ou não, jogo da Selecção. Querem ver o jogo? Vejam! Mas sofram as consequências. Adaptemos a situação. Poderá um cidadão normal, um funcionário da função pública, que entre às 9 horas e saia às 17 horas alterar o seu expediente de trabalho para ver um jogo? Por que razão tem um funcionário público de desperdiçar um dia de férias para ver um jogo ridículo duma selecção ridícula e um deputado por limitar-se a adiar o horário de trabalho? É francamente injusto e recorrendo à demagogia expõe-se facilmente o problema. Ambos são pagos pelo contribuinte, mas enquanto o funcionário público médio ganhará à volta de mil, mil e duzentos euros por mês, o deputado ganha três mil sem ajudas de custo. E isto para ir lá mostrar medicamentos. Haja paciência e algum bom senso.

    By Blogger JAS, at 02 junho, 2006 02:14  

  • Não tenho nada contra a mudança de horário.

    Duvido que haja algum profissional liberal que vá estar a trabalhar a essa hora.

    By Blogger Pedro Sá, at 06 junho, 2006 14:41  

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