Devaneios de um Caminhante Solitário

04 outubro, 2006

Os "Doutos"

Já há algum tempo que pensava em escrever algo sobre este tema que, confesso, entusiasma-me. Sempre tive grande fascínio por certas “mentes brilhantes” que, em tempos de antena nos media (alguns deles, pagos por todos nós…) conseguem abordar temas perfeitamente acessíveis a todos de uma maneira que só alguns “predestinados” entendam. Ricardo Araújo Pereira, o mais famoso “gato fedorento”, na sua crónica semanal na revista Visão, antecipou-se. O tema escolhido é, como não poderia deixar de ser, o futebol e a “personagem” é um tal de Luís Freitas Lobo, colunista do Público e comentador de programas televisivos na televisão dita, também ela, pública. Diz RAP que “lemos um parágrafo de LFL sobre futebol e apercebemo-nos de imediato que não temos formação suficiente para assistir ao Paços-Ferreira Vs Beira-Mar, quanto mais a jogos da Liga dos Campeões”. No último artigo de LFL no Público, a palavra transição (seja ela defensiva, atacante, de contra-ataque ou outra qualquer) aparece escrita cinco vezes contra zero de "fintas", "remates" e - apenas - uma (!) da palavra "golo" que, muito resumidamente, é o objectivo de um jogo chamado “Futebol”. RAP dá outros exemplos da mestria e sabedoria invejáveis de LFL como são os seus “canais de penetração preferenciais”, a “manutenção posicional”, “o problema táctico conceptual” ou, se preferirem, “o facto de um jogador deixar de percepcionar simultaneamente (atenção!) a defesa e o ataque”, de “fazer um movimento de dentro para fora e de assumir o jogo de trás para a frente, com grande intensidade”. RAP, por sua vez, esclarece que “estamos todos fartos de jogadores que não são grandemente intensos com a bola”.

Já antes, nos primórdios dos “Devaneios”, tinha criticado este tipo de “doutos”. Na altura, foi sobre um livro a explicar o “porquê de tantas vitórias de José Mourinho” e que, numa das passagens que folheei, apareciam frases (dignas de um qualquer Prémio Nobel da Literatura) como esta: “Este princípio metodológico fundado na concretização dinâmica da metodologia de José Mourinho pode ser designado por Princípio da alternância horizontal em especificidade. Há uma invariância de preocupação – a operacionalização do modelo de jogo – mas a escala a que isso vai acontece vai ser diversa”. É caso para perguntar: O QUE É ISTO? Será que os próprios escritores destes “brilhantismos” são, eles próprios, capazes de interpretar os seus ditos? Very doubtful… Afinal, está estatísticamente provado que um dos principais problemas dos alunos do ensino básico é o facto de não conseguirem interpretar aquilo que lhes foi pedido numa pergunta.

10 Comments:

  • Ainda não li o RAP esta semana, mas concordo plenamente...

    E o futebol é, de facto, uma das áreas onde mais encontramos essas preciosidades (maior exemplo: Rui Santos).

    By Blogger Pedro Malaquias, at 04 outubro, 2006 21:13  

  • Eu li o livro "Mourinho, porquê tantas vitórias?".

    Não o fiz por vontade própria mas por ser leitura obrigatória numa cadeira de gestão...[tal como já tinha referido há uns tempos atrás. Sim, todo o engenheiro deve ter noções de gestão.]

    Reconheço que o livro dá uma ideia geral das razões que tornam Mourinho num treinador diferente. No entanto há várias maneiras de comunicar com o leitor...

    Desde o uso de uma linguagem claramente desapropriada e que cai no rídiculo [o exemplo que mostraste caracteriza bem o que eu quero dizer...] até à apresentação exaustiva de factos, tudo torna o livro numa leitura entediante.

    Isto faz-me concluir que, para uma grande parte das pessoas, escrever bem implica o recurso a frases "barrocamente" elaboradas.

    Priviligia-se o aspecto em detrimento da compreensão. É, possivelmente, uma tentativa de ocultar aquilo que não se sabe fazer - escrever.

    A ver se divago sobre este tema no meu blog.

    Abraço,

    By Blogger Gervasio, at 05 outubro, 2006 14:35  

  • Eles levam-se a sério, como qualquer pelintra que aplaude a jogatana. Nem à caralhada sabem falar, quanto mais numa tentativa iditosa de ajustarem a forma verbal ao sujeito.

    By Anonymous António Leite-Matos, at 06 outubro, 2006 01:53  

  • Adorei a análise.
    Na verdade e em demasiadas ocasiões deparamo-nos com noticias, editoriais, comentários etc. que dificilmente conseguimos entender.
    Parece que algumas pessoas, fazem o possivel por desviar a atenção de quem lê, mais para a teia de palavras conseguida, do que para o ojectivo, que seria fazer-se compreender.
    Já não me surpreendo tanto com o facto de as nossas "criancinhas" terem dificuldades em assimilar aquilo que leem.
    Com textos como o que refere, quem não tem???
    Além das dificuldades de entender, vem a seguir o desinteresse pela leitura.
    Um dia , também penso abordar esta questão no blog.

    By Blogger tarirari, at 07 outubro, 2006 18:48  

  • PM: O Rui Santos até tem a sua piada. Defender aquilo que é quase impossível defender e (ainda para mais) daquela maneira confere-lhe um grau de ridicularidade dificilmente alcançável.

    Gervásio: Desde quando é que este livro faz parte da bibliografia de uma cadeira universitária!? Não sendo num sentido pejurativo exclusivamente direccionado à tua pessoa, isto diz bem não só da qualidade de ensino das nossas faculdades como... dos engenheiros per si. Abraço

    ALM: Isso é que os torna particularmente... ridículos! Bem-Vindo à Blogosfera, num regresso que se espera mais longínquo!

    Tarirari: Welcome back! Há muito tempo que não comentava, aqui, nos Devaneios! Concordo, em geral, com o que diz excepto numa única particularidade: as nossas "criancinhas" não conseguem assimilar qualquer tipo de textos, tenham eles o tipo de conteúdo que tiverem. Aliás, nos exames nacionais, por exemplo, o que se lhes pedem para "assimilar" (ou antes demonstrar essa assimilação) são excertos de Eça de Queirós ou Vergílio Ferreira - escusado será dizer que estão ambos a anos-luz dos ditos "doutos".

    By Blogger Caminhante Solitário, at 08 outubro, 2006 20:04  

  • "isto diz bem não só da qualidade de ensino das nossas faculdades como... dos engenheiros per si. Abraço"

    Julgo que se esperava um comentário melhorzito, vindo de ti...

    By Blogger Gervasio, at 11 outubro, 2006 20:23  

  • Não estou a criticar a classe dos engenheiros. Estou a criticar os professores que escolhem livros como este para serem estudados numa faculdade (ainda por cima com o prestígio que tem o IST)! Um bocado ridiculo, não achas?

    By Blogger Caminhante Solitário, at 11 outubro, 2006 21:49  

  • Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    By Blogger Gervasio, at 18 outubro, 2006 22:48  

  • Tirando o facto de este comentário ser "ligeiramente" diferente do anterior, sim, concordo contigo.

    By Blogger Gervasio, at 18 outubro, 2006 22:52  

  • Eu explico, Gervásio: Como bem sabes (e sei que tu, felizmente, és excepção), os engenheiros não são conhecidos nem por lerem nem por saberem escrever bem. O facto de um livro de 3 senhores quaisquer que se põem a dissertar (com palavras que ninguém percebe) sobre um treinador de futebol não deve ter maior elogio do que esse mesmo livro ser ensinado numa faculadade com o prestígio do IST! Acho incrível que isso aconteça e se não lamentasse, acharia também ridicula tal situação...

    By Blogger Caminhante Solitário, at 19 outubro, 2006 00:21  

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